A derrota do tu
Cláudio Moreno
SOMOS LIVRES PARA ESCOLHER, mas teremos de arcar com as consequências gramaticais
A pedido de vários leitores, comecei a discutir, na coluna anterior, as chances de sobrevivência do tu como forma de tratamento. Como além e acima de nossos desejos sempre paira a dura realidade, achei necessário estabelecer uma distinção crucial, baseada em observações concretas, verificadas em diversas pesquisas objetivas: o que vale em Portugal não vale aqui deste lado do Atlântico.
Lá, além das fórmulas de máximo respeito (o senhor, excelência, etc.), há duas maneiras de um português se dirigir a um gajo do mesmo nível social: ou usa você (com igualdade, mas sem intimidade), ou usa tu (com igualdade e intimidade). No Brasil, contudo, usamos um sistema binário, em que o senhor (respeitoso) contrasta com tu ou você, a ser escolhido livremente pelo falante. Em outras palavras, tu e você não diferem aqui em grau de intimidade, como em Portugal. Um pai falando com seu filho vai usar tu ou você por mera preferência regional, nada mais (o que não impede que pessoas habituadas ao você tenham essa impressão quando ouvem o tu, ou vice-versa).
Tecnicamente, portanto, a segunda pessoa do discurso (o interlocutor) pode ser representada gramaticalmente ou por tu (pronome da segunda pessoa) ou por você (pronome da terceira pessoa). Isso significa que somos livres para escolher, mas teremos de arcar com as consequências gramaticais: “Repara: tu nunca guardas teus livros na estante” ou “Repare: você nunca guarda seus livros na estante”. Usar o tu implica usar o verbo e os pronomes da segunda pessoa; usar o você, por outro lado, implica usar o verbo e os pronome da terceira pessoa.
Já no final do Período Colonial as duas formas passam a concorrer pela preferência dos falantes, estabelecendo-se um verdadeiro plebiscito silencioso. O resultado das urnas, meus amigos, já o temos há muito tempo; vou anunciá-lo com cautela, já com o pé no estribo, porque sempre haverá algum boi-corneta que tente atirar no mensageiro: o você é soberano em todo o território nacional, enquanto um tu dismilinguido e trôpego ainda resiste em partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, além de algumas áreas isoladas pelo Brasil afora, marcadas por forte imigração gaúcha.
É significativo, por exemplo, que já em 1789 o dicionário de Morais definisse você como “abreviatura de Vossa Mercê, usada por familiaridade e amizade”. Maria Tereza Biderman, num trabalho que já é clássico, comprova que a substituição do tu por você como forma de tratamento familiar foi se consolidando inexoravelmente a partir da segunda metade do séc. 19. Examinando a correspondência de Machado de Assis, por exemplo, a autora percebeu que até a penúltima década do século ele usava tu com os íntimos, passando então a usar exclusivamente você. Na próxima (e derradeira coluna), vamos examinar a lenta agonia do tu e avaliar o que será perdido quando ele, tal como a ararinha-azul ou o mico-leão (eita, cacófato brabo!), entrar definitivamente em extinção.
Sábado, 21 de novembro de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.